Substituindo o “ter ou não ter” comportamento automatizado no Twitter por uma análise que interprete a “eficiência”

Muitas pessoas tem pedido para detalhar melhor os grafos e seus agrupamentos. Acredito que esse balanço dos últimos três dias de Bolsonaro no Twitter (mais de 1.8 milhões de tweets) nos ajudem a entender o que se passa nesse momento, nessa rede social, com o tema Jair Bolsonaro:

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Vamos lá: no grafo acima, três são os agrupamentos que mais saltam aos olhos: 1º vermelho (esquerda/progressista), com 42% dos atores (nesse caso os usuários) e 41,31% das conexões; 2º azul (antibolsonarismo orgânico), com 36,28% dos atores e 21,13% das conexões e; 3º verde (bolsonarismo), com 14,52% dos atores e 28,4% das conexões. Algumas observações a partir desses números:

  • o bolsonarismo tem “apenas” 14,52% dos usuários, mas produz 28,4% das conexões. Isso dá uma média de 1,95. A esquerda/progressista teria algo como 0,98 e o agrupamento antibolsonarista dá 0,58. É quase o dobro da esquerda/progressista e mais que o triplo da antibolsonarista. De forma rasa e simplista: os bolsonaristas são quase duas vezes mais eficientes que a esquerda/progressista em disseminar conteúdo e mais de três vezes se comparados com a antibolsonarista.
  • O alto volume de interações restrito a uma das menores parcelas de usuários no grafo reforça uma hipótese: a análise de “ter ou não ter” comportamento automatizado deve ser substituída por uma análise que privilegie a “eficiência” desse comportamento, esta por sua vez menos quantitativa e mais qualitativa. Se o seu argumento disparado pelo seu agrupamento não for incorporado por outros agrupamentos – e isso serve para qualquer polo da polarização – você ficará gritando na sua câmara de eco. E, hoje, isso é o que acontece com o bolsonarismo.
  • O agrupamento bolsonarista apresenta a maior porcentagem de usuários com um volume discrepante de publicações, retweets e ou replies: 0,53% de seus atores (aqui identificados como usuários). Em comparação, o cluster de esquerda/progressista apresenta 0,26% de seus usuários com esse volume discrepante, enquanto no agrupamento formado pelo antibolsonarismo apenas 0,006% dos usuários apresentaram um volume anômalo de interações.
  • O papel que a imprensa interpreta nesse recorte é interessante. Cada vez mais empurrada pelo bolsonarismo, ela se aproxima de forma vertiginosa do agrupamento de esquerda/progressista. Assim, existe a hipótese de cada vez mais nos depararmos com artigos como o escrito por Hélio Schwartsman, respondendo muito mais aos anseios de determinados atores e menos ao papel que a imprensa deveria desempenhar em um momento como esse. Em suma, a imprensa que outrora se posicionara entre os pólos do debate político no Twitter, posteriormente se aproximou do antipetismo e agora flerta fortemente com o antibolsonarismo, tende a ver o reflexo disso no seu posicionamento de redes sociais online.

O último ponto levantado é importante para futuros debates: o enfrentamento as fake news, gabinetes do ódio e por aí vai passa, essencialmente, por um fortalecimento da imagem com a qual a imprensa é vista não apenas pelo agrupamento que, algoritmicamente, possa ser interessante para ela em determinado momento, mas sim por todo o ambiente online. A necessidade de uma auto-crítica do papel que esses autores desempenham nas redes sociais online é urgente para a evolução do debate político no Brasil.