O que a cracolândia e o papel judiciário brasileiro contra as milícias digitais bolsonaristas têm em comum?

O novo capítulo da novela envolvendo STF e milícias digitas bolsonaristas ganha um ar que me faz lembrar a região muitas vezes denominada como “cracolândia” na cidade de São Paulo. Explico:

No estudo do planejamento urbano existe o termo “estado de congelamento”. Ele é utilizado para descrever o impacto da ausência proposital do poder público em determinados locais, “fomentando” a depreciação para que, lá na frente, alguém possam lucrar com a depreciação desses territórios. Assim, parte da região central de SP que já abrigou casarões hoje é chamada por parte da sociedade de “cracolândia” e, hoje, o poder público tenta a todo momento criar novos projetos de requalificação para a região. Portanto, alguém sairia ganhando com o “estado de congelamento” de décadas atrás que levou a região a se deteriorar.

Faço um paralelo desse “estado de congelamento” na região da chamada “cracolândia” para as redes sociais: O judiciário brasileiro assistiu durante anos a ascensão de uma milícia digital de extrema direita assassinando reputações, espalhando a intolerância e tornando a convivência nas redes sociais online cada vez mais difícil. Porém, como um ator que se mudou da região antes do processo de deterioração, o judiciário se manteve inerte durante anos, assistindo distante tudo o que acontecia ali. Teria o judiciário, assim como o poder público, interesse no processo que se desenrolava nas redes sociais?

A diferença é que, assim como no planejamento urbano, o poder público esperara lucrar com a depreciação promovida, nesse caso, nas redes sociais contra alguns atores específicos que nós bem conhecemos. Porém em algum momento esse processo saiu do controle e, mais uma vez, o poder público foi chamado para agir de forma urgente, confusa, talvez até mesmo arbitrária.

Portanto, para os que hoje lamentam o papel do judiciário é importante lembrar que a influência do STF, TSE e afins já se dava lá atrás, quando permitiram que diversos setores da sociedade brasileira fossem atacados enquanto ministros e juízes assistiam tudo de forma passiva, contando com uma espécie de pacto (com supremo, com tudo?) que em algum momento desandou.