O debate sobre o #8M e o contorcionismo da imprensa para afastá-lo da ‘luta de classes’

Busquei durante o dia 8 de março, dia internacional da mulher, analisar o discurso da imprensa acerca da data. Comemoração? Mobilização? Manifestação? Resolvi entender o que ‘as imprensas’ queriam dizer. Após análise de mais de 130 canais de comunicação no Facebook, busquei traçar algumas linhas argumentativas observadas. No total foram capturadas mais de 970 publicações realizadas por essas páginas.

Não apenas o volume diz muito sobre o tema, mas também quem o produziu: páginas identificadas como de esquerda/progressista produziram mais que o dobro de publicações dos jornais impressos, por exemplo. Para além do volume de publicações, a ‘linha argumentativa’ adotada por cada campo denota um viés específico de abordagem.

Imprensa termos
Principais termos utilizados por cada agrupamento de mídia. Observamos, no agrupamento da imprensa tradicional, um predomínio de termos como: violência, direitos, homens e igualdade.

Enquanto a imprensa tradicional foca na luta contra a violência, por mais direitos e igualdade entre homens e mulheres, a imprensa de esquerda/progressista busca ir além, pautando o dia também com debates que buscam conectar à luta feminina outras pautas como mobilizações, democracia, golpe, ocupações e até mesmo críticas à imprensa. Descrevo os maiores abaixo:

AGRUPAMENTO I (24,27%): Aqui talvez resida a ‘perversidade’ da grande imprensa. Ao contrário das manifestações muito mais agressivas de mulheres ligadas à movimentos sociais brasileiros, grande enfoque é dado para manifestações realizadas na Espanha, por exemplo. Ao contrário de termos combativos são observados tantos outros que buscam valorizar o que a partir desta linha editorial parece uma ‘data festiva’: celebrar, especial, homenagear, participar, conquistas, entre outros. Manifestações com um ‘teor mais pacifista’ – ainda mais se comparada à invasão do parque gráfico da Globo pelas mulheres do MST – como as realizadas em São Paulo também foram divulgadas. Termos como luta e feminismo fazem parte também desse agrupamento, influenciados pela cobertura promovida também pela imprensa de esquerda.

AGRUPAMENTO II (23,79%): Compõe o agrupamento central de termos e partem de alguns debates ligados à pauta feminista como mulheres receberem salários menores, mulheres na política, ações pelo mundo. Aqui os homens são citados, o que sugere uma abordagem que busca contrapor ‘os privilégios em nossa sociedade’. Aborda fortemente a violência contra as mulheres, com termos como violência, combate, sexual, doméstico, Lei Maria da Penha, machismo, assédio, sofrer, respeito e vítima. Aqui uma notícia chama atenção ao criar um agrupamento específico (4,37%): projeto na Câmara que endurece a pena em crimes que envolvem estupro coletivo.

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Principais agrupamentos aqui analisados.

AGRUPAMENTO III (19,42%): No outro oposto do mapa a Globo monopoliza uma linha argumentativa – desta vez pela imprensa de esquerda. A cobertura aqui é muito mais focado em manifestações concretas de mulheres por todo o Brasil. Termos como denúncia, protesto, golpe, denunciar, movimento, trabalhadoras, cercar, reunir, organização, organizar, ocupar, democracia, espaço, paralisar, terras, empresas, entre outros dão uma noção de ações concretas durante este dia das mulheres. Esse viés é quase que subitamente ignorado pela grande mídia, sejam jornais, rádios, televisivas ou periódicas. Esse agrupamento aprofunda-se ainda mais em um outro, verde (4,85%), que foca a luta e o combate das mulheres do campo, abrindo assim uma nova vertente de ações, movimentos e organizações, no entanto, ignoradas pela grande mídia.

AGRUPAMENTO IV (14,08%): Um aprofundamento do agrupamento amarelo traz um viés jornalístico para casos específicos do dia a dia feminino na sociedade. Aqui são abordadas questões ligadas ao cotidiano, como filhos, educação, escola, sociedade, casa, mês, mãe, negro. Podemos definir como os problemas que as mulheres enfrentam no seu dia a dia. Preconceito, violência, dificuldade de inserção no mercado de trabalho e de continuar os estudos. Sendo um tipo de ‘violência’, dialoga fortemente com o agrupamento salmão.

AGRUPAMENTO V (9,22%): Aborda o dia, bem como o tema, de um viés muito ligado ao ‘conflito de classes’, abordando a luta por direitos e igualdade. Manifestações e a necessidade de ir as ruas contra a desigualdade são valorizadas aqui. O contraponto é feito a partir das reformas do governo Temer, definidas como retrocessos em uma sociedade que busca ser mais igualitária.